Cournot e a estrutura das revoluções na teoria econômica

Thursday, April 19th, 2007

Em A Estrutura das Revoluções Científicas, Tommy Kuhn afirma que os cientistas reescrevem a história de seu campo para transformar tudo num fluxo contínuo e acumulativo. É algo que pode ser tomado ou como um passo no desenvolvimento de uma visão cínica e relativista da ciência como gerada por um processo crooked, ou como reafirmação quase-neokantiana (no seu antipositivismo) do papel da teoria na formulação do conhecimento.

Independentemente do seu conteúdo filosófico, a estratégia kuhniana de análise histórica da ciência é tomada in stride pelos heterodoxos (que revertem o processo tentando fabricar rupturas — fingindo, por exemplo, que Marx não é ricardiano, Keynes não é marshalliano e Schumpeter não é walrasiano) e ignorada pelos ortodoxos, que cultuam o “consenso ascendente”. Ambos casos são perigosos.

Ao fazer a apologia da ruptura em autores mais ou menos incluídos num fluxo, a clivogenia heterodoxa quebra o princípio da falsificabilidade: deixa de valer o que está de fato no Das Kapital ou na General Theory de modo a pinçar o que estes têm de radicalidade. Ora, esta é uma atitude anticientífica: não se pode dizer que Keynes está certo ou errado porque a exegese o torna um alvo móvel.

Por outro lado, a fantasia ortodoxa de um crescimento linear da ciência é perigoso porque vai metamorfoseando conclusões em axiomas e vai perdendo a riqueza da diversidade de conteúdos que determinadas técnicas formais podem assumir. O modelo padrão de competição oligopolística é um estudo de caso maravilhoso, neste sentido.

A graduação em economia apresenta o modelo de Bertrand como um modelo de competição em preço, onde o modelo de Cournot é um modelo de competição em quantidade. Essa distinção, acrescida da intuição marshalliana dos preços se ajustando mais rápido que as quantidades, dá a idéia de que o modelo de Cournot descreve equilíbrios não-cooperativos de longo prazo, onde o modelo de Bertrand descreve guerras de preço no curto prazo. Não é nem que cheguem a dizer isso formalmente, mas é a impressão que fica, dado um universo de conhecimento acumulativo.

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p>O fato é que não existe um “modelo de Bertrand”.

Malthus, ou: tudo o que eu precisava saber sobre economia eu aprendi vendo Senna x Mansell com o meu pai

Saturday, March 31st, 2007

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O que raios ganha uma corrida de Fórmula-1?

1. Losing my religion

A UFRJ está para a heterodoxia como a PUC-Rio está para a ortodoxia; onde esta é um subproduto do pensamento da FGV, aquela é um subproduto do pensamento da Unicamp. Gradualmente, o professorado da PUC deixou de ser composto de ex-fegevitas e passou a contar com um número significativo de jovens retornando de Berkeley. Analogamente, o professorado da UFRJ gradualmente deixou de ser composto de ex-unicâmpios e passou a contar com jovens vindos de Cambridge. É assim que se formam as especificidades: quando quer um ortodoxo para debater em um seminário, a UFRJ convida alguém da FGV, e quando quer literatura heterodoxa para enriquecer-se teoricamente, a PUC circula dissertações da UNICAMP. É assim que todo o diálogo entre a PUC e a UFRJ consiste de pequenas ironias.

Eu fiz a minha graduação na PUC do Rio — basicamente, eles me ofereceram bolsa, a FGV não, e eu estava cansado da universidade pública com suas greves e idiotices ideológicas. Como todo filhote da PUC que por alguma razão decide fazer mestrado, as minhas opções eram a própria PUC e a FGV. Mas entre estar deslumbrado e complicado em um relacionamento absurdo, estar absolutamente de saco cheio com a economia e deslumbrado e complicado numa relação (muito mais frutífera que a outra) com a ciência da computação e uma fé inexplicável nos meus poderes mágicos, fui fazer o exame Anpec basicamente despreparado, e os meus poderes mágicos falharam: não obtive resultados fortes o suficiente para que fosse parar nas muito mais disputadas escolas ortodoxas. Em suma, for the record, fui parar no mestrado da UFRJ por pura incompetência.

Conto esta história no interesse do full disclaimer — porque pesa entre os que conhecem essa história a dúvida sobre a minha imparcialidade em discutir os méritos relativos das duas escolas e freqüentemente pessoas que deveriam confiar em mim acusam-me de minimizar o aspecto involuntário da minha estadia numa escola que na weltanschauung puquiana é francamente de segunda linha. Claro, eu percebo com clareza agora que as escolas de primeira linha são a FGV e a Unicamp, por serem fundamentalmente da linha de pensamento que representam — e não por circunstâncias políticas (o vínculo PUC-PSDB) e acadêmicas (um certo êxodo da Unicamp para a UFRJ e uma especialização em determinadas escolas heterodoxas de pouca expressividade elsewhere em parte como estratégia de diferenciação e em parte para absorver bons economistas formados em Cambridge).

O fato é que tive nos meus seis anos de economia um contato íntimo com os extremos teóricos do pensamento econômico contemporâneo no Brasil: fui aluno de Dionísio Dias Carneiro e de Mário Luiz Possas. Mais ainda, tomei contato com duas visões bastante distintas sobre a história do pensamento econômico — e apesar de ter basicamente dormido durante os cursos que explicitaram a visão ideológica hard de cada escola sobre o assunto, pude inferí-las e reconstruí-las heuristicamente pelo pensamento vivo de seus economistas modernos.

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p>O que eu estou oferecendo aqui é, em alguns parágrafos, um resumo de tudo o que eu aprendi de economia na vida — ok, omitindo os intermináveis cursos técnicos de contabilidade, econometria, etc., mas provavelmente, tudo o que você precisa saber para entender que raios é esse debate sobre como se ganha uma corrida de fórmula 1. O Gustavo Franco continua mais certo que o Carlos Lessa, mas o que cada um deles diz em público é uma meia-verdade. A idéia aqui é explicar o que você precisa para costurar as duas metades.

Intervenção

Sunday, February 4th, 2007

Existem, evidentemente, questões técnicas — quanto à eficácia de mercados desregulamentados e quanto ao poder de políticas emanando da autoridade central — envolvidas no debate sobre o nível óptimo de intervenção estatal na economia; estas são mais confusas do que parecem à primeira vista para o leigo, e deveriam ser deixadas para os especialistas. Trata-se, no entanto, de um debate que não se resume às propriedades técnicas de dinâmicas sociais teóricas, porque tem conseqüências diretas sobre o curso da vida social humana. E é a partir deste aspecto que um leigo deve começar a posicionar-se sobre o assunto: é preciso compreender a natureza do coletivo e suas interpretações para traçar o que são objetivos desejáveis do agenciamento coletivo. Isto mapeia-se bem ao debate: liberais enxergam um processo histórico da economia a partir da renascença que precisa de mecanismos de coordenação de emergência que são gradualmente incluídos no sistema, onde intervencionistas enxergam a emergência de uma ordem ideológica liberal como algo muito mais recente no contexto da evolução dos Estados nacionais. O discurso da gênese é poderoso, porque é responsável por atribuir a burden of proof a um lado ou ao outro, e tem permeado as atitudes intelectuais mais primárias destes dois grupos na maneira como eles se colocam na discussão. Mas é só mais um “módulo” analítico a ser considerado na formulação do problema do coletivo.

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